Obsessão e Hacks
Do terrorzão nos cinemas ao maravilhoso desfecho da série da HBO Max
E não é que voltei rápido?
Hoje quero falar sobre Obsessão, dirigido por Curry Barker. O filme está em cartaz nos cinemas e muita gente no meu Letterboxd gostou bastante, o que me deixou curiosa pra assistir logo. Foi a sessão do nosso último feriado (vale day, sempre maravilhoso) e, olha… valeu a pena.
Faço parte daquele curioso time de quem adora o gênero terror mas depois fica morrendo de medo à noite. Obsessão fez isso comigo porque é um filme que não apela para jumpscares: o grande trunfo da direção, da direção de arte e da fotografia é o aproveitamento do tom obscuro que nunca sai de cena. E quando a atmosfera consegue assustar mais do que sustos fáceis, é porque algo realmente deu certo.
Atenção: vou dar alguns spoilers abaixo, tá? Leia por sua conta e risco.
A trama também é assustadora por si só. O protagonista Baron, cujo apelido é Bear, é apaixonado por Nikki, sua amiga e colega de trabalho. O problema é que ele sabe que ela não sente o mesmo de volta. Quando encontra um produto mágico que pode garantir a realização de um único desejo, Bear não pensa duas vezes e deseja que ele seja a coisa que ela mais ama no mundo. Dá certo.
O que acontece imediatamente a partir daí (e a experiência coletiva no cinema reforça isso) é um misto de comédia com horror. As pessoas chegam a rir em algumas cenas, mas, pelo menos no meu caso, o riso era sempre de nervoso. Nikki é exposta a uma situação estarrecedora e é silenciada para agradar Bear — que fica num estado de euforia e confusão ao ver a mulher dos seus sonhos o desejando tão intensamente. Mas é evidente que não é Nikki quem está ali, e sim uma entidade que tomou posse de seu corpo. Mais tarde, descobrimos que a alma de Nikki está presa em outro local, junto com o representante do produto amaldiçoado, e tenta fugir dessa situação.
São coisas pequenas que me assustaram bastante em Obsessão. A conversa de Bear com o tal representante por telefone me deu arrepios. A atuação de Inde Navarrette, intérprete de Nikki, então… nem se fala. A partir do momento em que é possuída, suas expressões mudam tão rapidamente que é impossível passar batido por sua presença. Sem falar na sua voz, nos efeitos de som e nos gritos alucinantes. E a cena no quarto, com ela lá no cantinho parada de pé na madrugada, já é uma das mais aterrorizantes de 2026.
Para além do terror e do excelente trabalho de ambientação, a violência contra o corpo e a vontade de Nikki é muito marcante também. Antes de eu partir para esse ponto, vale eu citar a própria casa de Bear, herdada de sua avó. O espaço é extremamente sem identidade, com diversos objetos e móveis antigos que condizem com a personalidade do protagonista: alguém sem propósito, que parece que só está ali vivendo na inércia.
Bear finge que não entende a dimensão do problema que ele mesmo criou. Por um tempo, o “amor” que Nikki passa a sentir por ele preenche sua casa e sua vida. Mas as surpresas mórbidas aparecem desde cedo (o lanchinho de gato me pegou), e só quando os amigos fazem questão de deixar claro o quanto o casal não faz muito sentido que o garoto entende que seu desejo talvez tenha ido longe demais.
Enquanto isso, a verdadeira Nikki sofre em alguma espécie de prisão espiritual e tenta travar um embate com o espírito que a possuiu. Em breves momentos que consegue ter o domínio do próprio corpo, claramente mostra para Bear que odeia aquela situação. É muito angustiante acompanhar essa situação — o verdadeiro terror do longa.
Mudando totalmente de gênero agora, preciso finalizar a newsletter com Hacks! A série da HBO Max foi encerrada recentemente e da melhor forma possível: ainda em seu auge. Meu Deus, vai demorar pro entretenimento entregar uma dupla mais apaixonante que Debora Vance e Ava Daniels. Jean Smart e Hannah Einbinder, vocês têm meu coração todinho!
Ao contrário das temporadas anteriores, sustentadas quase que inteiramente pela rixa e pelas maravilhosas brigas da dupla, o quinto e último ano da produção foi um tanto quanto leve. Ter tempo para se despedir de personagens tão queridos é mesmo uma benção, pois todos tiveram tempo para brilhar: Jimmy, Kayla, Marcus, DJ…
É claro que esse contraste é bem aparente, mas para mim não chegou a ter impacto negativo. Maratonando junto comigo, Diego (acho que dispensa apresentações, né) inicialmente ficou bem incomodado com a ausência de conflitos. Mas eu comprei a ideia e gostei dessa vibe de despedida.
É como se toda a temporada fosse uma grande viagem para todo mundo dar adeus e demorar no último longo abraço. A humanização de Deborah diz muito sobre isso. Até uma deusa da televisão com a carreira praticamente irretocável é alcançada pela fragilidade da vida e pode querer sair à francesa (quase que literalmente).
Vou sentir saudade de Hacks, essa série de comédia que eu terminei de assistir chorando. Pra fechar, deixo uma frase de Deborah que resume muito bem a genialidade do texto dessa e de todas as outras temporadas:
“I think I have another hour. Will you help me write it?”
Até a próxima!



