O Convite
Muito mais do que uma proposta indecente
Olivia Wilde, a eterna Thirteen de House (saudades), é uma diretora interessantíssima. A comédia Fora de Série é maravilhosa e cheia de vida, enquanto o intenso Não Se Preocupe, Querida é daqueles filmes que nos deixam grudados na poltrona. Claro que todo o bafafá envolvendo o namoro de Wilde com o astro Harry Styles ofuscou bastante o segundo título, mas acho que a produção tem muito valor no que diz respeito a como ela escolhe contar uma história tão feminina e misteriosa.
Ela tem identidade própria, e em O Convite isso ficou ainda mais claro para mim.
Preciso começar citando o roteiro, coescrito por Will McCormack e a incrível Rashida Jones. Sem suas nuances que vão da comédia ao drama e algumas surpresas, certamente a direção de Wilde não faria milagre algum. Para um filme dar certo, é uma via de mão dupla, sempre. E, neste aqui, estamos falando de elenco e cenário minimalistas: são quatro atores e um apartamento. Seth Rogen, Penélope Cruz, Edward Norton e a própria Wilde formam um quarteto explosivo, enquanto a casa de Joe (Rogen) e Angela (Wilde) se transforma em um campo minado de emoções latentes.
Quando o casal recebe Pina (Cruz) e Hawk (Norton), os vizinhos de cima que protagonizam madrugadas barulhentas na cama, a tensão já está no talo. Joe e Angela, casados há anos e pais de uma menina, estão claramente infelizes: ele, num trabalho que desgosta; ela, colocando toda sua dedicação na decoração de uma casa que não é mais um lar. Do outro lado, o casal visitante está junto há pouco tempo, vive noites empolgantes com sexo em grupo e por aí vai. É aquele tipo de contraste que poderia pender apenas pelo lado do clichê — bem como naqueles filmes em que o casal principal descobre que ainda se ama e que a grama do vizinho não é assim tão verde.
Bem… no caso de O Convite, a grama da Pina e do Hawk é, sim, mais bonitinha e arrumada que a de Joe e Angela. O casal anfitrião está num péssimo momento, não só sexualmente falando como emocionalmente também. É triste notar quão machucado cada um está. Com o passar da projeção, vemos que as feridas são antigas e nunca cicatrizaram com o devido cuidado.
Enquanto isso, Pina e Hawk aparecem como uma brisa de fim de tarde naquele apartamento, dando uma arejada no ambiente denso. No início, Joe está totalmente na defensiva e só quer saber de reclamar sobre as noites agitadas no andar de cima. Ele detesta ouvir sexo alheio — e ok, está no seu direito. Mas é claro que, gradualmente, essa situação vai de encontro com o fato de Joe e sua esposa não estarem com a “chama acesa” no casamento.
E é aí que está o grande trunfo da história: o sexo está por todo canto de O Convite, mas este não é um filme sobre sexo. Parece até pegadinha, né? É por isso que o texto, tão impactante, certamente estará presente nas indicações de grandes premiações do cinema.
As atuações dos quatro estão impecáveis, no tom certo para nos chocar e também nos emocionar. Quando eu achava que a narrativa seguiria pra um caminho mais cômico, aparecia um golpe dramático totalmente inesperado. E o contrário também aconteceu. Numa noite de queijos e vinhos às avessas, eu senti empatia por todos eles, cada um à sua maneira. Que experiência curiosa esse filme me proporcionou.
O Convite está em cartaz nos cinemas. Já assistiu? Vai assistir? Comenta aqui.
Ah, e hoje tem mais uma crítica disponível! Leia também minha opinião sobre outro lançamento nas telonas: A Morte do Demônio: Em Chamas — essa disponível diretamente na Folha de S. Paulo.
Até a próxima!


